Decima
Vanderlei Martinelli, 16/04/1996

eu volto a escrever poesia
como se jamais a tivesse escrito
escrevo alheio ao mundo
que ora me serve como escabelo
ora me esmaga as costas.
escrevo displicentemente
distraído de onde e para qual destino caminha o Brasil
desinteressado de mirabolantes planos
ou de diálogos inteligentes entre Caetano e Gil.
escrevo meu esquecimento
de como a queria, e repetia o amor
como prece de beata em romaria.
escrevo meu atrevimento
um árduo início, desnudamento,
que enfim passe a desvelar
o velamento de mim,
uma pessoa que se foi
e chora sua própria ida
escrevo para a vida, que me traga
eu mesmo, mais feroz, mais feliz,
mais sábio e mais ingênuo que nunca.
escrevo para mim, esta construção enorme
pesados alicerces, construção sem fim...